No “Jornal de Letras” de 14 de Abril, a propósito do livro “Autobiografia Política" de Cavaco Silva, Miguel Real escreve um texto muito interessante acerca da “revolução mental” operada em Portugal pelo Cavaquismo. Eis alguns excertos:
“Com Cavaco Silva coexiste a vontade de submeter Portugal ao duplo choque do império da tecnologia e do liberalismo económico, considerados valores culturais em si; (…)
Ao operar esta revolução mental, incorporada, senão desejada pela mentalidade dos portugueses, ansiosos de riqueza para breve, Cavaco Silva abriu as portas à entrada de um novo Portugal em que os antigos valores cristãos e burgueses (Caridade ou Solidariedade, o Bem, o Belo, o Absoluto, a Justiça, a Liberdade, a Igualdade, a Espiritualidade, …) orientadores do todo da sociedade, se mercantilizaram, substituídos pela idolatria do dinheiro, do prestígio social individualista, do poder pessoal (na escola, na empresa, no condomínio, …), o Portugal mercantilista eternamente recusado pelos nossos maiores da cultura portuguesa (…).
Ser competente é dar lucro à empresa, ousar ser melhor do que os outros, chegar primeiro do que todos, atingir o topo antes dos restantes, sendo que “o melhor”, “o mais” e o “antes” não se medem em termos de valores morais ou culturais, mas, de novo, em termos quantitativos e económicos. (…)
A classe política e empresarial dominante hoje em Portugal possui todos os tiques de filhos-de-Cavaco, ressumando, em nome de um individualismo extremo, um realismo arrogante, frio, racional, calculista, “científico” e uma política socialmente impiedosa (…) o modelo já não é o modelo europeu de Mário Soares/Sá Carneiro/Freitas do Amaral, mas os padrões texanos do feroz, cruel, anti-cristão e desapiedado individualismo da cultura “empresarial” americana, civilização da plena idolatria da deusa "Mercado".
Quando as ilusões economicistas dos filhos-de-Cavaco passarem, Portugal estará no exacto lugar onde D. João III o deixou há quatrocentos anos, isto é, um país lateral e periférico da Europa, 50 anos atrasado face aos indicadores europeus, mas o Estado (…) desfalcado da sua vertente social, de animador da investigação científica e de promotor cultural, engordado pela actual filosofia do consumidor-pagador, doente-pagador, utente-pagador, aluno-pagador, ter-se-á tornado o pior inimigo dos portugueses.
Publicado por Paulo Ribeiro em abril 17, 2004 06:51 PMExcelente retrato daquele que poderá vir a ser o
primeiro magistrado da Nação, mas não com o meu apoio. Cavaquistão não, obrigado.