Este título é o título da crónica de Augusto Santos Silva, hoje, no "Público". Augusto Santos Silva é, certamente, um dos melhores analistas políticos, pelo menos entre os de Esquerda. O texto de hoje é dos melhores. O marketing, que a editora Caminho do PCP e o próprio Saramago escolheram para publicitar não o livro mas a sua venda e o próprio partido, é deveras condenável, principalmente porque é disfarçado.
A.S.S. é certeiro:
"Mas dói-me que doravante se possa dizer que até o Nobel Saramago condescende, por vaidade ou comércio, na desvalorização do que ele faz de melhor, e é literatura, em troca do que faz de pior, e é teimar em ser mestre-escola dos seus concidadãos. "
Enquanto ocorre esta história triste com o nosso Nobel, a Direita no Governo vai promovendo os escritores menores, (e de direita, obviamente), como é seu hábito. Éu já tinha lido a notícia, mas A. S.S. diz isso, criticando a cumplicidade do próprio campo literário":
"É verdade que a literatura leve e digestiva fez o seu caminho de afirmação institucional, com o silêncio cúmplice do campo literário, e já merecemos ter, como vamos ter, por convite do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, a representar a literatura portuguesa na Bienal de São Paulo, essa proficiente escritora chamada Margarida Rebelo Pinto."
Quanto ao livro "Ensaio sobre a Lucidez", diz A.S.S. que tem qualidade literária. Valha-nos isso. O resto... a publicidade comercial da editora, a publicidade política do PCP, a literatura de cordel (mesmo que promovida por instituições governamentais), tudo isto passará como o vento.
Saramago é por si só, uma personagem geradora de
controvérsia, mas não deixa por isso de continuar
a ter o mérito que lhe foi reconhecido pela sua produção literária.