dezembro 10, 2003

"Lágrima de preta"

Neste dia dos Direitos Humanos veio-me à memória este poema de António Gedeão.

Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhai-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

Publicado por Paulo Ribeiro em dezembro 10, 2003 09:10 PM
Comentários

a arte como instrumento de humanização
sem desprezar o recorte estético...
Gedeão tens muitos outros poemas, eu sei, aquele do gato é um dos meus preferidos...

Afixado por: alexandre em fevereiro 2, 2004 02:11 AM