A morte de Sérgio Vieira de Melo levou-me à releitura da poesia de Thiago de Mello, um dos grandes poetas do Brasil.
Transcrevo um excerto do poema "É preciso fazer alguma", escrito em Setembro de 1974.
"Escrevo esta canção porque é preciso.
Se não a escrevo, falho com o pacto
que tenho abertamente com a vida.
É preciso ajudar o homem.
Agora.
Ajudar, eu insisto, agora mesmo.
Cada vez mais sozinho e mais feroz,
o homem está perdido em seu caminho.
É preciso fazer alguma coisa
para ajudá-lo.
Ainda é tempo, é tempo.
Apesar do próprio homem, ainda é tempo.
Apesar dessa crostra que cultivais
com amianto e medo - ainda é tempo.
Apesar da reserva delicada
das perfeitas e cegas toneladas
de TNT pairando sobre o centro
de cada coração - ainda é tempo.
No Brasil, em Angola, na Alemanha,
na ladeira mais triste da Bolívia,
na poeira que embaça a tua sombra,
na janela fechada, no mar alto.
No Próximo Oriente e no Distante,
na nova madrugada lusitana
e na avenida mais iluminada
de New York. No Cuzco desolado
e nas centrais atómicas atónitas,
em teu quarto e nas naves espaciais
- é preciso ajudá-lo.
(...)
Dentro do riso torto que disfarça
a amargura da tua indiferença,
na mágica electrónica dourada,
no milagre que acende os altos-fornos,
no desamor das mãos, das tuas mãos,
no engano diário, pão de cada noite,
o homem agora está, o homem autómato,
servo soturno do seu próprio mundo,
como um menino cego, só e ferido,
dentro da multidão.
Ainda é tempo.
Sei porque canto: se raspas o fundo
do poço antigo de sua esperança,
acharás restos de água que apodrece.
É preciso fazer alguma coisa
para livrá-lo dessa sedução voraz
da engrenagem organizada e fria
que nos devora, a todos, a ternura,
a alegria de dar e receber,
o gosto de ser gente e de viver.
É preciso ajudar.
Porém primeiro,
para poder fazer o necessário,
é preciso ajudar-me, agora mesmo,
a ser capaz de amor - de ser um homem.
Eu que também me sei ferido e só,
mas que conheço este animal sonoro
que profundo e feroz reina em meu peito.
Thiago de Melo, in "Canto do Amor Armado"